domingo, 18 de setembro de 2016

QUAL O NOME DA DIVINDADE DO CRISTIANISMO?


Caiu em minhas mãos um dos folhetos publicados pelas Testemunhas de Jeová. Trata-se da The Watchtower (no Brasil Sentinela) de 1º de abril de 2015.
Logo na primeira página desta revista, no artigo que trata da matéria de capa, em nota de pé da página, lê-se que “segundo a Bíblia, Jeová é o nome de Deus”, na edição em inglês "Jehovah is the name of God as revealed in the Bible".
Para os crentes, “Segundo a Bíblia...”, ou "revealed in the Bíble" são expressões fortes que procuram estabelecer uma ligação de verdade: se a Bíblia diz, está correto. Mas a Bíblia não diz!
Qualquer leitor que conheça os textos bíblicos em hebraico, sabe que o tal nome está simplesmente grafado como:  hwhy) (lê-se da direita para a esquerda iôd ou iúd, hêi, vav, hêi ). Quando escrito nos caracteres ocidentais fica: YHVH (iôd é tomado como Y, hêi como h e vav como v – agora da esquerda para a direita).
A língua hebraica é construída usando 22 consoantes. Não existem as vogais. Preocupados que a pronuncia se perdesse, na Idade Média, os massoretas criaram sinais que correspondem às vogais. Porém, não colocaram os sinais nas quatro letras YHVH, impossibilitando sua pronúncia. Os judeus não pronunciam esta palavra.
Sendo assim, o que nos mostram as diversas traduções do original hebraico?
A Bíblia de Gutemberg, publicada por volta do século XV, apresenta o texto em latim e traduziu as letras YHVH pela expressão “dons”. Esta é a simplificação de “Dominus”. Na tradução proporcionada pelo Rabino Meir Matzliah Melamed da Torá (edição bilíngue) e publicada pela Editora e Livraria Sêfer (edição 2001), traduz as letras YHVH como “Eterno”; já na versão do Rei James (KJV) de 1611, a tradução considerou como “Lord”. Também verificamos que a tradução para o francês de Calvino é “Seigneur”. Na edição espanhola de Reina-Valera, no entanto, temos o termo Jehovah, assim como na edição Pastoral, publicada pelas Edições Paulinas encontramos Javé.
Portanto, não faz sentido usar a expressão “segundo a Bíblia...” porque ela não nos diz nada. Quem está afirmando é o tradutor que por sua vez pertence a uma congregação e que pensa conforme a congregação e não conforme uma suposta “verdade”.
É compreensível que as Testemunhas de Jeová digam que a tradução deve ser Jeová (ou Jehová), – evidentemente que não poderiam dizer que o significado é Javé, ou Javú, ou Jevi, Jeovú ou ainda Jeuvó, ou mesmo Eterno, Senhor, etc., porque teriam que mudar a designação do grupo.
O que não se pode admitir é esta briguinha embirrenta para saber quem fica com o pirulito das crianças, ou melhor, quem fica com as crianças fornecendo a elas falsos pirulitos.

DEUS NOS DETALHES - Jerry A. Coyne

Em 1996, Michael Behe publicou o livro Darwin's Black Box. No Brasil, foi lançado em 1997 pela Jorge Zahar Editor, com o título A Caixa Preta de Darwin. Em 1996, Jerry A. Coyne publicou uma resenha sobre o livro na revista Nature, vol 383. Abaixo o texto traduzido do original.

A meta dos criacionistas tem sido sempre substituir o ensino da evolução pela narrativa dada nos primeiros sete capítulos do Gênese. Quando o caminho fica impedido à esta tentativa, os criacionistas ensaiam uma nova estratégia: disfarçam-se com o manto da ciência. E desta forma reúnem palavras contraditórias como “criacionismo científico”, argumentando que os verdadeiros fatos da biologia e da geologia mostram que a Terra é jovem, que todas as espécies foram criadas repentinamente e simultaneamente e a extinção em massa fora causada pelo grande dilúvio mundial. A semelhança entre esta teoria e o livro do Gênese foi, claro, meramente acidental. O criacionismo científico, contudo, fracassa. Virtualmente todo “cientista” criacionista seria um fundamentalista religioso sem habilidade em biologia, e a corte americana claramente identifica os clérigos por baixo dos jalecos.
Em "A Caixa Preta de Darwin", Micheal Behe oferece uma nova e mais sofisticada versão do criacionismo científico. Diferentemente de seus predecessores, Behe é um verdadeiro cientista, um bioquímico da universidade de Lehig na Pensilvânia. O livro assegura que ele não é um criacionista, mas que acredita no método científico. Seu argumento, contudo, é uma versão reciclada da noção criacionista que o “projeto complexo” implica em uma projetista inteligente. Porém, onde William Paley ilustrou esta lógica com um relógio, Behe usa a bioquímica. Sua futura audiência de leitores leigos pode ser impressionada pela elaborada descrição da biologia molecular e longas listas de referências, porém, a alternativa “cientifica” de Behe para a evolução enfim, torna-se uma confusa e não comprovada mistura de ideias contraditórias.
A tese de Behe é que os organismos abrigam caminhos moleculares tão elaborados e interconectados que eles não podem ser explicados pela evolução gradual a partir de precursores simples. Seus exemplos para tais caminhos são descritos com admirável clareza de estilo, compreende a coagulação do sangue, o sistema imunização e o transporte intercelular. Esta parte ele chama “complexidade irredutível”: eles não funcionariam se qualquer componente simples fosse removido. Porque o darwinismo requer que o caminho seja útil em todos os estágios de sua evolução, Behe reivindica que tais caminhos complexos irredutíveis não evoluiriam em passos. Sua existência, consequentemente, implica em um projeto consciente e um projetista inteligente (como todo cientista criacionista, Behe sustenta renunciar sobre a identidade do Grande Projetista, mas o autor, que professa o catolicismo romano oferece uma pista). Os evolucionistas são ditos resistirem a esta ideia de projeto por uma causa obstinada, porém a uma desarrazoada aversão a explicações sobrenaturais. Behe, contudo, está livre desta restrição. Com paternal orgulho, ele declara que sua descoberta do projeto bioquímico “deve ser classificada como uma das grandes façanhas na história da ciência”, rivalizando com “aquelas de Newton e Einstein, Lavoisier e Schrödinger, Pasteur e Darwin”.
Não há dúvida que os caminhos descritos por Behe são assustadoramente complexos e sua evolução seria difícil para ser desvendada. Ao contrário das estruturas anatômicas, cuja evolução pode ser traçada com os fósseis, a evolução bioquímica deve ser reconstruída a partir de organismos vivos altamente evoluídos, e podemos sempre ser incapazes de prever as primeiras vias primitivas. Não é valido, contudo, assumir, porque alguém não seja capaz de imaginar tais vias, que elas não poderiam ter existido. Além disso, como J. B. S. Haldane apontou: “minha própria suspeita é de que o universo não é apenas mais estranho do que supomos, mas mais estranho do que podemos supor”. Nós enfrentamos não apenas a ausência de dados, como também o terrível fato que somos criaturas com cognição e imaginação limitadas.
A questão do argumento de Behe consiste em perceber que as vias bioquímicas não evoluíram por meio da adição sequencial de etapas que se tornam funcionais apenas no final. Em vez disso, elas foram manipuladas como peças cooptadas de outras vias, genes duplicados e enzimas multifuncionais iniciais. A trombina, por exemplo, é uma das principais proteínas de coagulação do sangue, mas também atua na divisão celular, e está relacionada com a tripsina das enzimas digestivas. Quem sabe qual a função que veio primeiro? Behe faz algumas tentativas tímidas para construir estas vias, mas rapidamente abandona a empreitada e chora pelo “projeto”.
Evolucionistas vão encontrar outros dois problemas com os argumentos de Behe. Primeiro, existe ampla evidência para a evolução da morfologia e anatomia a partir dos estudos de paleontologia, embriologia, biogeografia e órgãos vetigiais. Essa evolução deve, naturalmente, ser baseada na evolução das moléculas e caminhos bioquímicos. Segundo, temos abundantes evidências para a evolução das moléculas. Isto inclui a notável congruência entre filogenias com base na anatomia e aquelas baseadas no DNA ou sequência de proteínas (a hemoglobina do morcego, por exemplo, é muito mais semelhante à das baleias do que com a das aves). O parentesco dos genes através da duplicação dos genes (incluindo aqueles envolvidos no sistema imunológico e coagulação do sangue), e a existência vestigial de “falsos genes” que foram úteis nos antepassados (diferentemente da maioria dos mamíferos os humanos não podem sintetizar a vitamina C; nós ainda carregamos os genes para a etapa final deste caminho, mas eliminações tornaram-na não funcional).
A resposta de Behe para estes problemas constituem a maior fraqueza de sua história. Ele mastiga a ideia da evolução morfológica, mas não consegue engoli-la. Ele acha a ideia de um descendente comum para todos os organismos “bastante convincente”, e admite que a microevolução ocorre dentro da espécie, mas não vê qualquer evidência para as transições entre as formas principais (como negar a descendência comum e negar a macroevolução é uma das questões fascinantes que Behe deixa sem resposta). Finalmente, em uma tática única na literatura criacionista, admite que, tanto a evolução como a criação podem ocorrer ao nível molecular. Tal teoria híbrida, no entanto, produz prole estéril, tal como a ideia de Behe de que o “projeto” da primeira célula poderia incluir o DNA para toda a mudança evolucionária, incluindo os olhos e o sistema imunológico.
Para responder às observações dos genes não funcionais e processos moleculares ineficientes, Behe teoriza que o Grande Projetista, como sua duplicata em Paris e Milão, tem meta além da funcionalidade: “recursos que nos parecem estranhos em um projeto pode ter sido lá colocado pelo projetista por um motivo – por razões artísticas, para variar, para mostrar, por algum propósito prático ainda não detectável ou por alguma razão incompreensível – ou não pode”. Deve-se adicionar ainda a “razão endiabrada”: para confundir os futuros biólogos, fazendo as coisas parecerem que evoluíram.
Se se aceita a teoria de Behe que tanto a evolução como a criação podem operar em conjunto, e que a meta do Projetista são insondáveis, então ele apresenta uma teoria hermética que não pode ser provada errada. Eu posso imaginar evidências que falsificam a evolução (um fóssil hominídeo no pré-cambriano faria muito bem), mas nenhuma que possa falsificar a complexa teoria de Behe. Mesmo após um esforço imenso, fossemos capazes de compreender a evolução de um caminho bioquímico complexo, Behe poderia simplesmente afirmar que a evidência para o projeto reside em outras vias inexplicáveis. Como nunca se consegue explicar tudo, sempre haverá provas para um projeto. Este criacionismo regressivo ad hoc pode parecer inteligente, mas certamente não é ciência. Como apontou o teólogo Dietrich Bonhoeffer, isto também é uma religião ruim: “se de fato as fronteiras do conhecimento estão sendo empurradas cada vez mais para trás (e este é o caso), então Deus está sendo também empurrado para trás com elas e, portanto, continuamente em retirada”.
No final, Darwin’s Black Box é um trabalho de defesa cuja ascendência criacionista é revelada tanto por sua retórica quanto pela incapacidade de lidar honestamente com a evidência da evolução. Existem citações seletivas de evolucionistas (incluindo, para meu horror, uma observação minha alterada e fora do contexto), escárnio de cientistas e um estilo folclórico “nós-contra-eles” que refletem as raízes populistas do criacionismo. Este livro, sem dúvida, será amplamente citado pelos criacionistas bíblicos, que veneram sua mensagem de projeto enquanto ignoram sua tímida aceitação da evolução e sua visão do criador como um Traquina Cósmico.
Se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegaremos a lugar algum transformando nossa ignorância em “Deus”. Lord Kelvin declarou que a Terra primitiva precisava esfriar muito rapidamente para permitir a grande idade exigida pelo darwinismo. Como ele poderia ter imaginado que a radioatividade seria descoberta quatro décadas mais tarde para provar a origem da ausência de calor? Duane Gish, o decano dos criacionistas americanos, uma vez defendeu a criação separada de mamíferos e répteis, com base na estrutura das mandíbulas. Cada um tem uma articulação da mandíbula feita a partir de um par diferente de ossos, e Gish não conseguia imaginar como a forma de transição podia mastigar enquanto sua mandíbula estava sendo equilibrada e rearticulada. Em 1958, contudo, Fuzz Crompton descreveu um réptil como um mamífero com uma articulação da mandíbula dupla que incluía ambos os pares de ossos. A evolução das vias bioquímicas é certamente mais estranho do que pode supor o professor Behe.


Jerry Coyne é do Departamento de Ecologia e Evolução, Universidade de Chicago, Chicago, Illinois 60637, USA.

DEUS NÃO ESTÁ MORTO

Para alguns o filme é adorável, surpreendente e inteligente, para outros, maniqueísta que pretende alfinetar os ateus. Quem está com a razão?
Os escritores e roteiristas do filme Cary Solomon, Chuck Konzelman e Hunter Dennis apoiados pelo apologista Dr. Rice Broocks erraram feio, porque se a obra foi realizada com o objetivo de provar a existência de Deus, falha; se o objetivo é convencer os ateus para assumirem uma religião, mesmo sem provas da existência de Deus, também falha; caso deseje apenas convencer seus próprios seguidores, a manterem suas crenças, também falha; O filme é mais um grito de desespero. Desespero com a onda crescente de ateísmo no mundo, que segundo estudiosos da religião se deve a determinadas facções religiosas conhecidas como protestantes fundamentalistas.
Abaixo apresento alguns pontos discutíveis do filme:
1.      Inicia-se com o seu título que é bastante apelativo. Provavelmente desejavam com ele induzirem os futuros espectadores que dariam a prova da existência de Deus. Para isto interpuseram estrategicamente a palavra “não” à frase “Deus está morto”. O filme não apresenta qualquer prova sobre a existência de Deus. Apenas discursos mal alinhavados por um estudante que nem mesmo conhece sua própria religião. A única frase que cita é de C. S. Lewis, porque está na moda com as “Crônicas de Nárnia”. Não apela para os debatedores do tema como Santo Anselmo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Calvino, Lutero e muitos outros ou até mesmo Friedrich Schleiermacher para o qual a religião não pretende explicar e determinar o Universo de acordo com sua natureza. Nem mesmo mostrou capacidade para apresentar o argumento sobre o livre arbítrio;
2.      O filme se sustenta sobre um argumento falso: o professor Radisson não é ateu. Um ateu não responsabiliza Deus pelo que acontece de bom ou ruim no mundo ou em sua vida. Isto é uma contradição. Quando o estudante Josh interpela o professor Radisson com a pergunta “por que o senhor tem raiva de Deus”, o professor deveria responder que não tem sentido a pergunta, assim como não tem sentido ter raiva do Papai Noel porque o filho não recebeu um presente no Natal. Criar um falso ateu para alfinetar os ateus é ridículo, principalmente com os diálogos criados. Ao contrário, parece confirmar que os seguidores de uma religião não o fazem por princípio, mas tão somente por ganância, medo ou sentimento de culpa. Ser teísta é acreditar na existência de alguma divindade e ser ateísta é não acreditar na existência de qualquer divindade. Um ateu não é ateu porque lhe doeu o dedo do pé, ou porque a mãe morreu. Será que os autores perceberam que ao tentar deturpar o conceito de ateísmo, vestiram a carapuça de aproveitadores?;
3.      Quando o estudante apela para o Big Bang, supondo provar a existência de Deus, apoia-se no senhor John C. Lennox, citado como grande autoridade, que por sinal possui um livro publicado cujo título bombástico é “God’s undertaker: has Science buried God?” e nele afirma “As reverberações do big bang e as subsequentes descobertas científicas apontam com clareza para uma criação ex nihilo consistente com os versículos de abertura do livro do Gênesis”. Acontece que o senhor Lennox mesmo que possuísse alguma autoridade, precisaria apresentar as provas do que afirma. E isto ele não faz. Qualquer leitor da Bíblia sabe que no princípio Deus criou “o céu” ou “os céus” e a terra. Veja que por esta pequena bobagem (céu, céus), demonstram os seguidores da religião judaico-cristã, que ainda não chegaram a uma conclusão sobre o que realmente Deus criou, e têm a desfaçatez em discutir o big bang. Em seguida está escrito que “as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas”. Após este fato ele cria a luz e separa a luz das trevas e, quatro dias após, eis que faz o Sol. É preciso ser muito estúpido para ver nesta passagem aquilo que a ciência descreve como sendo o big bang. Ao criar a luz, já existia tanto a água como o ar (e como o vento soprava impetuoso, significa que existia um gradiente de temperatura). Aqui merece ser citado um pequeno trecho de George Gamow; “– ‘Qual o mais útil, o Sol ou a Lua?’ pergunta Kusma Prutkov, o afamado filósofo russo, e depois de alguma reflexão ele mesmo responde: ‘a Lua é mais útil, pois nos dá o luar de noite, quando tudo está escuro, ao passo que o Sol brilha de dia, quando tudo está claro’”. Como se sabe, Gamow foi um dos elaboradores do modelo do big bang. Mas no filme, o “filósofo ateu” apenas cita uma frase do Hawking, solta no ar;
4.      O filme também demonstra flagrante intolerância religiosa ao apresentar a garota Ashla sendo espancada e expulsa de casa por um pai que professa a religião islâmica. Os autores se esqueceram de olhar o telhado de vidro: podemos observar claramente que um casamento ou mesmo um namoro de um crente com alguém de outra religião, que não tem os mesmos valores cristãos, é desaconselhado por Deus” – está escrito em um site evangélico. Contraditoriamente na 2ª Surata no Versículo 87 do Alcorão está escrito: “Havíamos concedido o Livro a Moisés, e depois enviamos os apóstolos e concedemos a Jesus, filho de Maria, as evidências, e o fortalecemos com o Espírito da Santidade. Acaso, não é certo que cada vez que vos era apresentado um apóstolo contrário a vossos interesses, possuídos de vaidade, desmentíeis uns e assassinavam outros?”. Uma vez mais o tiro sai pela culatra e o filme demonstra a impossibilidade de um discurso ético e moral com base religiosa;
5.      O filme reafirma o velho dilema de Adão e Eva: é melhor ser obediente do que desejar a capacidade em discernir o bem do mal. Situação esta que nega a possibilidade da existência de livre arbítrio. A obediência cega é a chave para manter a religião. O discernimento é obra do mal;
6.      A obediência e o compromisso com Deus deve superar tudo. Logo no início o estudante Josh abandona sua namorada ao abraçar a causa religiosa e se coloca contra os pais. Deus é mais importante. Imagine este poder nas mãos de pessoas desqualificadas!;
7.      O filme é uma ótima obra para ser analisada por psicólogos e psiquiatras;
8.      Para encerrar, o filme só convence os desmiolados fieis de carteirinha. Aqueles que choram no salão enquanto o pastor, bispo, apóstolo ou sei lá mais o quê, brada que é preciso pagar pelas orações e balançam seus carnês com orgulho. Como disse um destes homens da igreja “comercializar a religião é melhor que vender droga”.
O filme não é inteligente porque não apresenta argumentos e transforma o debate, que deveria ser considerado sério, em um monte de “abobrinhas”.
Será que vai sobreviver ao futuro?

O Problema da Evolução nos EUA

CIÊNCIA, RELIGIÃO E SOCIEDADE
O Problema da Evolução nos EUA
Jerry A Coyne
Em: Evolution – International Journal of Organic Evolution, março, 27/2012

RESUMO
A resistência dos americanos em aceitar a evolução é excepcionalmente elevada quando comparada a outros países do primeiro mundo. Isto se deve, em grande parte, à extrema religiosidade nos EUA, que é bem maior em comparação com outras nações desenvolvidas e a resistência que muitas pessoas religiosas têm aos fatos e supostas implicações da evolução. A prevalência da crença religiosa nos EUA sugere que a divulgação unicamente por cientistas não tem aumentado a aceitação da evolução, nem a estratégia de tentar convencer os fiéis de que a evolução é compatível com a religião. Porque o criacionismo é um indício de religião, outra estratégia para promover a evolução é soltar a mão da fé nos EUA. Isto é mais fácil dizer do que fazer, pois, recente pesquisa sociológica mostra que a religião está altamente relacionada com a disfuncionalidade de uma sociedade, e as várias medidas da saúde social mostram que os EUA é uma das mais socialmente disfuncional do primeiro mundo. A aceitação generalizada da evolução nos EUA, portanto, deve esperar por uma profunda mudança social.

Este ano completo três décadas de ensino da evolução, tanto em cursos regulares em universidades como em palestras públicas. Também tenho escrito livros de divulgação sobre a enorme e variada evidência da evolução (Coyne, 2009a) com a esperança de reduzir a resistência nos EUA ao meu ramo da biologia.
Porém a resistência permanece. Considere por exemplo, a pesquisa de Miller et al. (2006) realizada em 33 países europeus, incluindo o Japão. Seus moradores foram perguntados se concordam, não concordam ou estão inseguros quando à declaração: “seres humanos, como os conhecemos hoje, se desenvolveram de uma espécie animal anterior”. A posição dos EUA foi próxima da mais baixa alcançada, indicando 40% concordando, 39% discordando e 21% inseguros. Somente a Turquia apresentou valores menores respectivamente 27%, 22% e 52%. Em contraste, nos países como a Islândia, Dinamarca, França, Japão, Reino Unido, Espanha e Alemanha mostraram mais que 70% concordando (J. D. Miller pers. Comm.).
Isto é um constrangimento nacional. Imagine se os EUA ficassem em posição inferior em uma pesquisa internacional sobre nossa aceitação dos átomos ou da “teoria microbiana” das doenças! (Atualmente, de acordo com pesquisas realizadas pelo Departamento de Educação dos EUA, Centro para a Estatística da Educação (2011) os EUA estão quase na média em alfabetização geral e matemática comparado com os países como aqueles pesquisados por Miller et al.).
O assunto fica pior quando se desconstrói dados sobre evolução. Muitos dos americanos que parecem aceitar a evolução em princípio, todavia, exigem que Deus de alguma maneira intervenha ou guie a evolução do Homo Sapiens e, desse modo, dispensando-se a evolução natural aceita pelos cientistas. Uma recente pesquisa Gallup (2011a), por exemplo, forneceu estes resultados: 40% dos americanos veem os humanos como criados diretamente por Deus na forma atual dentro do período de uns 10.000 anos (i.e., criacionismo da Terra Jovem), 38% veem como tendo se desenvolvido a partir de formas de vida menos desenvolvidas acerca de milhões de anos, mas através de um processo guiado por Deus (evolução teísta), enquanto apenas 16% aceitam que os humanos tenham se desenvolvido de espécies anteriores através de um processo não guiado por Deus (evolução não teísta). Embora a “evolução guiada por Deus” seja um termo vago, nem todos os 38% que acreditam na evolução teísta, podem ser contados estritamente como criacionistas, mas todos eles acham a evolução naturalista censurável por razões religiosas.
Os números do Gallup têm-se mantido bastante estável desde quando começaram em 1982. Os números recentes mostram ligeira melhora: os 9% que aceitavam a evolução não guiada naquele ano, são agora 16%, um aumento de 77%. Porém, isto ainda são números bem abaixo dos valores encontrados para a Europa e Japão. Até este momento, apenas um em cada seis americanos aceitam a forma de evolução humana sem apelar para uma intervenção ou guia divino.
A visão criacionista parece mais arraigada quando alguém pergunta a um americano, independentemente de sua crença pessoal, sobre como deveria ser ensinada nas escolas públicas, a origem do ser humano. De acordo com a pesquisa de Harris em 2005 e resumida em PollingReport.com, somente 12% - um em oito – responderam pensando que somente a evolução naturalista deveria ser ensinada, mas quase o dobro (28%) foram favoráveis ao ensino unicamente da visão criacionista. Quatro por cento pensaram que somente o projeto inteligente deveria ser ensinado e 3% estavam inseguros. Mas a inclinação para disponibilizar “tempo igual” para o ensino, profundamente equivocado neste caso, foi evidenciado no colossal resultado de 55% dos americanos acreditando que evolução, criacionismo e Projeto Inteligente poderiam ser ensinados!
Os resultados destas pesquisas podem, evidentemente, seduzir como questão respondida, mas um livro recente, analisando todas as pesquisas, chegou à seguinte conclusão (Berkman and Plutzer 2010, p.62):

Mesmo que as atuais porcentagens possam diferir entre as pesquisas, não há dúvida que a grande maioria dos americanos querem o ensino do criacionismo nas escolas públicas. Uma grande pluralidade deste grupo quer o ensino criacionista como ciência, na classe de ciência, enquanto outros, aparentemente, ficam satisfeitos se algumas ideias do criacionismo forem validadas em uma discussão a partir de uma perspectiva religiosa ou de crença.

                Neste artigo ofereço algumas reflexões sobre porque os EUA – unicamente entre os países do primeiro mundo – é tão refratário à evolução, discutindo algumas soluções. Minhas opiniões, é claro, são apenas minhas e não uma visão oficial da Sociedade para o Estudo da Evolução.

PORQUE OS AMERICANOS ODEIAM A EVOLUÇÃO?

A resistência dos americanos à evolução e sua medíocre compreensão de ciência geral (Academia de Ciências da Califórnia, 2009) são frequentemente colocados parcialmente à porta dos cientistas. Somos acusados de nos enclausurarmos nos laboratórios em vez de irmos ao público (veja, por exemplo, Mooney e Kirshenbaum, 2009). Porém, tem havido muita divulgação. Agora, mais do que todo o tempo de minha vida, vejo os americanos inundado de ciência popular – a evolução em particular. Livrarias estão repletas de volumes de Stephen Gould, Steven Pinker, Richard Dawkins, Edward O Wilson e Jared Diamond. A psicologia evolutiva está totalmente em moda, museus de história natural têm sido usados amigavelmente, existem dezenas de blogs sobre evolução, tempos inteiros de televisão são devotados à ciência e à natureza. Nunca foi tão fácil encontra ensino de ciência para leigos e comentários populares sobre evolução. Contudo, nosso recorde para aceitar a evolução é abismal. Por quê?
                A resposta parece pouco clara: a religião (defino religião como “sistema de crenças de que aceita ou adora a existência de seres não naturais cuja ação afetam o universo”). A religião é uma resposta que muitas pessoas não querem escutar, porém existem evidências claras que a resistência dos americanos à evolução é realmente um subproduto da extrema religiosidade dos americanos (uso o termo “religiosidade” no primeiro sentido fornecido pelo Dicionário de Inglês de Oxford, como: “o sentimento ou crença religiosa”). A evolução, é claro, contraria muitas das crenças religiosas comuns – não apenas aquelas que lidam com o literalismo bíblico, mas também aquelas que lidam com a moralidade, significado e importância do ser humano.
                É sabido que os EUA são um dos países mais religiosos das nações do primeiro mundo. Dados de Paul (2009) mostram, por exemplo, que entre 15 desses países, os EUA abrigam a mais alta proporção de pessoas que dizem acreditar em Deus com absoluta certeza (63%), com a nação mais próxima deste valor, logo em seguida, sendo a Irlanda com 50%; seguem-se dez países abaixo de 20%. Porém estes dados subestimam a religiosidade americana, porque eles negligenciam pessoas que estão absolutamente certas sobre Deus. Uma recente pesquisa Gallup (2016b), por exemplo, mostram que quando o americano é perguntado “você acredita em Deus?”, 92% responderam “sim”.
                É obviamente palpável que, apesar da presença de poucos ateístas ou agnósticos que negam a evolução, virtualmente toda oposição à evolução nos EUA e em outros países tem raízes religiosas. Os fundamentalistas religiosos do criacionismo e sua enteada Projeto Inteligente (ID) têm sido repetidamente identificados pelos tribunais americanos, ao proibirem o ensino desta visão nas escolas públicas, por violarem a legalidade americana da separação igreja e estado – separação esta reforçada pela “cláusula estabelecida” na Primeira emenda à Constituição. E, evidentemente, existem as declarações de muitas igrejas e partidários (mais frequentemente entre os fundamentalistas, ou protestantes sectários) que a evolução viola o dogma de sua fé, corrói a moralidade, dissipa a ideia de propósito e significado humano e ameaça a excepcionalidade do ser humano, materializada nas escrituras.
                Mas não são apenas os fundamentalistas religiosos que se opõem à evolução nos EUA. Como mencionamos acima, 40% dos americanos veem Deus como diretamente responsável pela criação do ser humano, porém, recente pesquisa Gallup (2011c) mostra que apenas 31% destes veem a Bíblia como uma verdade literal. Embora algumas denominações religiosas não tenham oficialmente se oposto à evolução, muitos dos que a aderem a rejeitam. A Igreja Católica, por exemplo, aceita uma forma de evolução teísta, principalmente natural, mas ainda guiada por Deus quando se trata da evolução do ser humano e sua suposta alma (João Paulo II, 1996). Mesmo assim, 27% dos católicos americanos pensam que as espécies modernas foram instantaneamente criadas por Deus e permanecem deste então sem se alterarem, enquanto 8% não sabem ou se recusam a responder (Masci, 2009). As estatísticas para a linha dos protestantes não evangélicos são virtualmente idênticas. Mesmo os crentes “liberais”, mostram, com base religiosa, sua oposição à evolução.
                Esta conclusão é acompanhada pela pesquisa de Pew, comparando a aceitação da evolução entre o público americano como um todo em relação a americanos não filiados com alguma religião (Masci, 2009). Sessenta por cento dos não filiados veem as espécies como tendo evoluído por processo natural (o número para o público geral é de 32%), 15% envolve um Deus guia no processo evolucionário (22% do público geral) e somente 11% dos não filiados (e 31% do público geral) veem a vida como tendo existido na forma atual desde os tempos iniciais. Claramente a evolução naturalista é menos agradável pelo menos para as religiões.
                Estas pesquisas também mostraram que a frequência à igreja é negativamente correlacionada com a aceitação da evolução. Apenas 14% dos que vão à igreja pelo menos semanalmente pensam que a evolução ocorreu por processo natural. Este número aumenta para 36% para aqueles que frequentam a igreja mensalmente ou anualmente e para 51% entre aqueles que raramente ou nunca vão à igreja.
                Observa-se a existência de uma relação negativa entre religiosidade e aceitação da evolução não apenas dentro dos EUA, mas também em outros países. Na Figura 1, plotei os dados para 32 países na Europa – incluindo o Japão e os EUA – relacionando a crença em Deus na aceitação da evolução humana. A forte correlação negativa é óbvia, mesmo omitindo-se a alta religiosidade americana, e o baixo evolucionismo dos EUA. A religiosidade explica os 37% da variação entre as nações na aceitação da evolução. Obviamente, a correlação não é a causação, e pode-se interpretar este resultado como indicando que a religião não impede a aceitação da evolução, mas que aceitar a evolução torna um menos religioso. Sem dúvida que ambos os fatores operam (ou podem existir outras variáveis correlacionadas, mas não examinadas), mas a explicação anterior parece mais robusta, dado que em muitos países as pessoas adquirem sua fé antes de aprenderem sobre evolução.
                Existe uma ampla evidência, portanto, que a aversão à evolução decorre da crença religiosa não apenas nos EUA, mas em todo o mundo e, não há evidência que a resistência à evolução se reflete por uma falta de sensibilidade na divulgação por parte de professores e cientistas. Mais alguns dados garantem esta conclusão (Masci, 2007):

Quando perguntado o que eles fariam se os cientistas refutassem uma crença religiosa particular, dois terços das pessoas disseram que continuariam mantendo o que sua religião ensina em vez de aceitar a descoberta científica contrária, de acordo com os resultados de uma votação da revista Time de outubro de 2006.

INCOMPATIBILIDADE ENTRE CIÊNCIA E FÉ

                Como sugeriu o último parágrafo, a religião gera resistência não apenas à religião, mas também à própria ciência. No entanto, frequentemente escutamos que estas duas esferas do pensamento são perfeitamente compatíveis. Alguns argumentam que a simples existência de cientistas religiosos prova esta compatibilidade, mas é ilusória. As pessoas podem simultaneamente apresentarem dois pontos de vista conflitantes na sua cabeça e isto não é compatibilidade, mas uma admissão solipsista de Walt Whitman (1855): “Eu contradigo-me?/Muito bem, então me contradigo,/(Eu sou grande, eu contenho multidões)”. Este argumento para compatibilizar a ciência/fé é como afirmar que o cristianismo e adultério são compatíveis porque muitos cristãos são adúlteros.
                Como já discuti anteriormente em maiores detalhes (Coyne, 2009b, 2010) eu vejo a religião e a ciência como incompatíveis por várias questões: a primeira envolve a metodologia. O método científico de encontrar a verdade, se baseia na razão, investigação empírica, criticismo, dúvida, poder preditivo e repetibilidade de observações por diferentes observadores, é incompatível com o método da religião para entender o universo – método baseado sobre dogma, autoridade e revelação. A verdade científica muda em resposta a novas descobertas sobre o mundo, enquanto a “verdade” (as aspas denotam minha dúvida de que esta verdade exista, porque ela difere entre indivíduos e entre fés) religiosa muda raramente e na maioria das vezes em resposta aos avanços científicos (por exemplo, evolução) ou mudanças na moralidade secular (exemplo, reconhecimento dos direitos das mulheres e gays). Em ciência a fé é um defeito, na religião uma virtude. A ciência uma vez descobrindo a verdade sobre o universo este é aceito universalmente (embora sempre provisória); a religião pode perguntar sobre o universo (por exemplo, “qual o propósito do cosmos!”), mas não pode responde-la de maneira que satisfaça a todos os crentes, mesmo dentro de uma única denominação religiosa.
                Segundo, esta incompatibilidade metodológica resulta em disparidade de resultados entre as “investigações” científicas e religiosas. Muitas das “verdades” uma vez reveladas pela fé abraâmica, por exemplo, foram refutadas pela ciência: estas incluem a criação especial, a história de Adão e Eva e o grande dilúvio. A ciência também mostrou outras reivindicações religiosas implausíveis, tal como a existência de nascimento a partir de virgens, ressurreição corporal, uma alma separada do cérebro e do corpo e assim por diante. Desnecessário dizer que não existe verdade científica que tenha sido refutada pela religião. E como bem sabemos, diferentes religiões produzem reivindicações diferentes e muitas vezes incompatíveis sobre a realidade, fazendo confusão da verdadeira noção de “verdade religiosa”. Muitos cristãos reivindicam não apenas que Jesus é divino, mas que o caminho para o céu requer a aceitação desta afirmação; enquanto o Alcorão afirma categoricamente que aqueles que sustentam essa crença vai passar a eternidade no inferno. Esta reivindicação não pode ser verdadeira.
                Em contraste, existe apenas uma característica da verdade científica independentemente das condições étnicas e fé de seus praticantes. A experiência tem demonstrado uma única maneira de descobrir a verdade sobre nosso planeta e o universo: uma combinação de empirismo e racionalidade, que é a forma ampla de conceber a ciência.
Esta incompatibilidade entre reivindicação religiosa e verdade científica é mais evidente quando se trata de evolução. Como observei acima, não apenas 40% dos americanos possuem profunda visão anticientífica que os humanos foram criados nos últimos 10.000 anos em sua forma atual e mais 38% são favoráveis à forma da evolução humana guiada por Deus. Isto também não é científico porque os biólogos veem os humanos, como qualquer outra espécie, desenvolvendo-se unicamente por processo natural. Existe uma razão, afinal, porque a grande ideia de Darwin foi denominada seleção natural. Aqueles que desejam harmonizar ciência e fé tende a varrer este problema para debaixo do tapete, mas a verdade é que 78% dos americanos discordam da visão científica para a evolução. Esta dicotomia entre o público e os cientistas é nitidamente delineado pelo teólogo protestante e filósofo Alvin Plantinga (2011, pp4-5):

O que não é consistente com a crença cristã, contudo, é a reivindicação de que a evolução e o darwininsmo são não guiadas – onde incluo aí o ser não planejado e não desejado. O que não é consistente com a crença cristã é a reivindicação que nenhum agente pessoal, nem mesmo Deus, guiou, programou, destinou, orquestrou ou elaborou todo o processo. Ainda precisamente esta reivindicação tem sido feita por um grande número de cientistas contemporâneos e filósofos que escrevem sobre este assunto.

Além das duas incompatibilidades de metodologia e resultados, existe a incompatibilidade filosófica: a visão científica que um ser sobrenatural não é apenas desnecessária para explicar o universo (naturalismo metodológico), mas pode ser considerado como inexistente (naturalismo filosófico). Forrest (2000, p21) explicou a ligação entre estas duas formas de naturalismo:

Tomados em conjunto, (1) o comprovado sucesso do naturalismo metodológico com (2) o corpo maciço de conhecimentos adquiridos por ele, (3) a falta de um método compatível ou epistemologia para conhecer o sobrenatural e (4) a subsequente falta de qualquer evidência conclusiva para a existência do sobrenatural, produz o naturalismo filosófico como a visão de mundo mais metodológico e epistemológico defensável.
Onde o naturalismo filosófico vence, a visão de mundo é substantiva, construída sobre os resultados do naturalismo metodológico e não existe nada comparável a esta última em termos de proporcionar um suporte epistemológico para uma visão de mundo. Se o conhecimento é apenas tão bom quanto o método pelo qual é obtido, e a visão de mundo é apenas tão bom quanto seus fundamentos epistemológicos, então tanto de um ponto de vista metodológico e epistemológico, o naturalismo filosófico é mais justificável do que qualquer outra visão de mundo que se pode conjugar com o naturalismo metodológico.

A ideia de que divindades não afetam o universo, portanto, não é um pressuposto injustificado a priori, como afirmam os teólogos, mas uma conclusão nascida da experiência. A experiência que somente uma atitude naturalística – isto é, unicamente científica – ajuda-nos a entender a natureza e fazer predições verificáveis sobre ela. Como nossa confiança de que a ciência nos ajuda a entender o desenvolvimento do universo, assim diminui a nossa noção de que existem forças imateriais e sobrenaturais.
Mais evidências para a incompatibilidade vem da enorme disparidade na religiosidade entre cientistas e leigos. Enquanto apenas 6% do público americano se descreve como ateísta ou agnóstico, 64% da “elite” dos cientistas universitários americanos se enquadram nesta categoria (Ecklund, 2010; com resultado similar apresentado por Larson e Witham, 1997). Este número é muito maior para os cientistas mais talentosos. Uma pesquisa de Larson e Witham (1998) mostra que 93% dos membros da National Academy of Sciences, parte do corpo da elite dos cientistas americanos, são agnósticos ou ateístas, com apenas 7% acreditando em um Deus pessoal. Isto é quase o inverso dos números em relação ao público americano como um todo.
Esta disparidade evidencia uma profunda desconexão entre fé e ciência. Independentemente de saber se ele reflete a atração de não crentes para a ciência, ou o fato que a ciência corrói a crença religiosa – ambos são, sem dúvida, verdadeira – a incompatibilidade permanece.
Finalmente, esta incompatibilidade e amplamente percebida pelos próprios americanos. Em uma recente pesquisa do Pew Forum (Masei, 2009) perguntado aos americanos se “a ciência e a religião estão em frequente conflito?”, as respostas obtidas foram: 55% do público geral disse “sim”, 38% “não” e 7% “não sei”. Colocada a questão como se “a ciência algumas vezes está em conflito com sua própria crença religiosa ou não?”, renderam as seguintes respostas: 36% “sim”, 61% “não”. Entre os católicos, uma das fés mais amigáveis com a evolução, 54% veem o conflito geral, enquanto 44% veem a ciência como às vezes em conflito com sua própria fé.
Grande parte deste conflito certamente envolve a evolução que, entre todos os sucessos da ciência, é a que atinge mais diretamente a fé. Nenhuma outra área da ciência, salvo talvez a cosmologia, desconcerta tanto os fiéis. E a disparidade entre cientistas e o público em geral em relação à religião é profunda: enquanto 32% do público pensa que o ser humano evoluiu por processo natural e 31% reivindica que o ser humano foi criado em sua forma atual, a quantidade entre os cientistas é de 87% e 2% respectivamente (Pew Research Center, 2011).
Mas o conflito entre religião e ciência existe independente da evolução. Shekart (2011) usou dados da pesquisa do National Opinion Research Center sobre a alfabetização científica dos americanos e correlacionou esta alfabetização com variáveis demográficas tais como gênero, renda, educação, religião e se as pessoas acreditavam que a Bíblia era literalmente verdadeira, não literalmente verdadeira, mas inspirada por Deus ou um livro de fábulas criado pelo homem. A pesquisa deliberadamente omitiu questões sobre os temas políticos e religiosos referentes à evolução e aquecimento global. Os resultados foram marcantes: a religião foi fortemente e significativamente associada a uma alfabetização científica menor. Protestantes sectários e surpreendentemente católicos, obtiveram as menores pontuações nos testes do que “outros protestantes” e “não cristãos” (exemplo, judeus e budistas), que por sua vez ficou abaixo dos descrentes. As três categorias de crença na Bíblia também afetaram a alfabetização científica na direção esperada: mais literalismo foi associado com menos alfabetização. Regressões multivariadas mostraram que o efeito da religião foi independente do grau de crença na Bíblia e vice-versa. Sherkart concluiu (pg 1145):

O fosso entre o sectarismo e fundamentalismo e outros americanos é bastante substancial. Na verdade, apenas a educação é uma forte predição de proficiência científica do que fatores religiosos são... alfabetização científica é baixa nos EUA em relação a outras nações desenvolvidas e esta pesquisa sugere que fatores religiosos desempenham papel decisivo na criação deste déficit.

Muitos americanos também são iletrados teologicamente. Uma pesquisa em 2010 (Pew Center Research Publications) encontrou “um grande número de americanos estão mal informados sobre as tendas, práticas, história e personalidades de muitas tradições de fé – incluindo a sua própria” (curiosamente, os ateístas eram mais educados sobre religião em geral do que qualquer grupo religioso). É possível, então, que alguns dos fiéis rejeitem a evolução simplesmente porque eles não têm consciência de que sua própria denominação aceita.

SOLUÇÃO

Como podemos superar a religiosidade baseada na oposição à evolução e à ciência em geral? Duas estratégias vêm à tona: a primeira envolve o convencimento das pessoas religiosas que nem a evolução nem a ciência podem ameaçar sua fé, uma estratégia conhecida como “acomodacionismo”. A esperança é que ao mostrar aos fiéis que a ciência e a evolução não conduzem automaticamente ao ateísmo, muitos deles vão manter a sua fé e abandonar o criacionismo. Esta tática tem sido amplamente adotada por teólogos, organizações religiosas, cientistas e até mesmo por sociedades científicas.
Em grande medida, o acomodacionismo é apoiado firmemente pela generosidade das Fundações John Templeton, que dispensa anualmente 70 milhões de dólares em dinheiro como concessão a cientistas e teólogos em muitos dos seus projetos, usualmente agrupados sob o título de “Big questions” – destinado a conciliar ciência e fé (Bains, 2011). Também atribui anualmente o Prêmio Templeton de um milhão de libras esterlinas (deliberadamente maior que o prêmio Nobel) em honra “a uma pessoa que tenha contribuído para a afirmação da dimensão espiritual da vida, seja através da percepção, descobertas ou trabalhos práticos” (Templeton Fundation, 2011). A BioLogos Fundation, financiada pela Templeton e criada por Francis Collins, atualmente diretor da National Institutes of Health, destina-se a convencer cristãos evangélicos que eles podem aceitar Jesus e Darwin.
A prevalência do acomodacionismo é melhor transmitida por algumas declarações oficiais de organizações científicas. Em 2006, a American Sssociation for the Advancement of Science (AAAS), emitiu uma declaração sobre o ensino da evolução que incluía o seguinte:

Os patrocinadores de muitas destas propostas locais estaduais [para limitar ou eliminar o ensino da evolução nas escolas públicas] parecem acreditar que evolução e religião conflituam. Isto é lamentável. Estas não precisam ser incompatíveis. A ciência e a religião possuem questionamentos fundamentalmente diferentes sobre o mundo. Muitos líderes religiosos têm afirmado que eles não veem conflito entre religião e evolução. Nós e a maioria esmagadora dos cientistas, partilhamos desta opinião.

O AAAS (2011) também patrocinou um “Diálogo sobre ciência, ética e religião”, programa que promove fortemente a visão de que não existe incompatibilidade entre ciência e religião. Esta iniciativa foi patrocinada garantindo em 18 anos $5,351,707 dólares pela John Templeton Foundation.
A National Academies (2008) um consórcio da elite científica, fez declaração similar em sua página “Evolution Resources”:

Ciência e religião estão embasados sob diferentes aspectos da experiência humana. Em ciência, explicações devem ser baseadas em evidências extraídas examinando o mundo natural. Observação em experimentos que estão em conflito com uma explicação eventualmente, deve conduzir a modificações do mesmo, abandonando a explicação com base científica. A fé religiosa, ao contrário, não é dependente apenas de evidência empírica, não é necessariamente modificada em face da evidência de conflito e tipicamente envolve forças ou entidades sobrenaturais. Porque eles não são parte da natureza, entidades sobrenaturais não podem ser investigadas pela ciência. Neste sentido, a ciência e a religião abordam aspectos do entendimento humano por diferentes caminhos. Tentar colocar a ciência e a religião uma contra a outra é criar uma controvérsia onde não precisa existir.

Deixando de lado os conflitos óbvios em metodologia e resultados descritos acima, a alegação de que “entidades sobrenaturais não podem ser investigadas pela ciência” é questionável em função das ações reivindicadas para estas entidades. Estudos para a oração de intercessão, por exemplo, não produziram qualquer evidência para o sobrenatural (Gaston, 1872; Avilas et al 2001) e muitos estudos similares – a eficácia da dança da chuva e sacrifício de animais que me veem à mente são possíveis de serem testados.
Finalmente a página da internet do National Center for Science Education, a primeira organização ante criacionista nos EUA, tem uma seção sobre “Deus e Evolução” que afirma (Uess, 2009):

A ciência da evolução não faz reivindicações sobre a existência ou não de Deus, mais do que as outras teorias científicas como a gravitação, estrutura atômica ou placas tectônicas. Assim como a gravidade, a teoria da evolução é compatível com o teísmo, ateísmo e agnosticismo. Alguém pode aceitar a evolução como a explicação mais convincente para a diversidade biológica, e também aceitar a ideia de que Deus trabalha através da evolução? Muitas pessoas religiosas aceitam.

E muitos não.
Em contraste, a “Declaração sobre o ensino da evolução” pela Sociedade para o Estudo da Evolução que não menciona a religião, é um modelo de como promover a evolução exclusivamente com seus próprios méritos científicos, sem passar pelo interior pantanoso da teologia e da compatibilidade religiosa:

A teoria evolucionária deve ser ensinada nas escolas públicas porque é uma das mais importantes teorias científicas já criadas, e porque é a explicação científica aceita para diversidade da vida. Como teoria científica ela é testável e tem sido extensivamente testada. Como declarado pelo grande geneticista e evolucionista Theodosius Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido, exceto à luz da evolução”. A teoria da evolução é assunto de refinamentos e revisões, mas isto não difere de qualquer outra teoria científica, tais como as que fornecem os quadros explicativos da geologia, física ou química. Não existe razão científica ou pedagógica para tratar a teoria da evolução tão diferentemente de qualquer outra teoria científica bem aceita e deve ser ensinada nas escolas públicas como firmemente estabelecida e aceita como princípio unificado que ela é.

Várias das declarações oficiais citadas acima mostram que o acomodacionismo repousa em grande parte da noção de que a ciência e religião são áreas disjuntas – “diferentes caminhos do conhecimento” que respondem diferentes questões sobre o mundo. Esta afirmação, historicamente comum entre os acomodacionistas, tornou-se famosa com o livro de 1999 de Stephen J. Gould “Rocks of Age: Science and Religion in the Fulness of Life”. Gould propunha uma doutrina denominada “NOMA”, abreviatura de “non-overlapping magisteria”, cuja essência era:

A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural e a desenvolver teorias que coordenem e expliquem estes fatos. A religião, por outro lado, opera no igualmente importante, mas completamente diferente reino de propósitos e significados de valores humanos – assunto que o domínio factual da ciência pode iluminar, mas nunca pode resolver (Gould, 1999, pg4).

O grande problema com o acomodacionismo é a ausência de estudos mostrando este trabalho. Pode-se argumentar, por exemplo, que a afirmação da compatibilidade da evolução e escritura não ultrapassa 31% dos americanos que veem a Bíblia como verdade literal, nem influenciam aqueles que sentem que a ideia de evolução está ligada a imoralidade, uma vida desprovida de propósito e significado e a visão de que o H. Sapiens não é uma meta especial da criação de Deus.
A ideia do “NOMA”, também é problemático. Como Orr (199) e Coyne (2000) observaram ao analisar “Rocks of Age” de Gould, a religião e a ciência ocupam magistérios distintos se “religião” for definida de maneira particular. A visão de Gould que a genuína religião não está em conflito com a ciência é tautológico porque ele considera que a religião em conflito com a ciência, tal como o fundamentalismo protestante, como não “genuína”. E não é apenas o fundamentalismo protestante cuja religião não é realmente “religião” à luz de Gould, mas também os muitos mórmons, Testemunhas de Jeová, judeus ortodoxos, cientologistas, muslins, hindus e principais correntes protestantes e católicas que subscrevem as narrativas criacionistas. Simplesmente não é correto delimitar “religião” de forma a excluir uma enorme fração dos crentes do mundo.
Além disso, apesar da afirmação de Gould, a religião também não monopoliza a moralidade. Houve uma vigorosa tradição secular da moralidade desde a Grécia Antiga e muitos dogmas da moralidade baseada na religiosidade, incluindo a privação generalizada do direito das mulheres, não crentes, gays rejeitados em localidades liberais. No final, qualquer religião teísta está fadada ao conflito tanto com NOMA e ciência, porque o teísmo reivindica que os deuses afetam o funcionamento do mundo real e que podem, em princípio, ser testados ou adjudicados pela ciência.
Eu defendo então que, quando as organizações científicas defendem a compatibilidade da religião e evolução, ou da religião e a ciência em geral, elas não estão envolvidas em ciência ou filosofia, mas em tecnologia. Isso porque o acomodacionismo subscreve uma forma particular de religião – uma fé liberal que vê as escrituras como quase inteiramente metafórico. Este ponto de vista marginaliza as muitas formas de religião cuja oposição à evolução é baseada em estrita adesão à escritura e dogma, bem como aquelas religiões, como o catolicismo, que aderem uma forma de evolução guiada por Deus. As organizações científicas devem seguir a liderança da Sociedade para o Estudo da Evolução na manutenção estrita neutralidade em relação à fé, evitando qualquer declaração sobre se religião é compatível ou incompatível com a ciência. Quando fazemos uma declaração oficial sobre a necessidade do ensino da evolução, vamos manter sua especialidade – a ciência – e deixar a teologia para os teólogos.
O que mais pode ser feito se o acomodacionismo tem sido historicamente mal sucedido? Uma alternativa ou estratégia complementar é trabalhar ativamente para enfraquecer a força da religião nos EUA – ou pelo menos daquela espécie de religião que imuniza as pessoas contra a evolução e a ciência. Este é o caminho escolhido por muitos cientistas. Depois de ter ensinado a evolução por anos, estamos finalmente reconhecendo onde se encontra nossa verdadeira oposição: o criacionismo que simplesmente é um dos muitos sintomas de religião. Um contínuo fluxo de propaganda ante evolucionista é despejado por motivação religiosa, distorcendo o entendimento popular de evolução. Evidentemente que a evolução naturalista não atrairá a maioria dos americanos até que nossa nação se torne menos religiosa, portanto, contrário ao acomodacionismo, que considera a religião como algo adquirido. É provável que poderíamos promover melhor a evolução, mas sem usar a estratégia do BioLogos de tentar convencer os evangélicos para abraçarem uma visão de mundo que eles consideram repugnante, concentrando-se em trazer os católicos e a linha principal dos protestantes para a categoria dos “sem religião”!
Uma réplica óbvia é esta: “que é inútil a religião estar sempre conosco”. Para isto tenho duas respostas: Primeiro, olhar para a Europa, que era profundamente religiosa, mas agora é em grande parte não religiosa. Enquanto 92% dos americanos acreditam em Deus (Gallup 2011b), outras nações do primeiro mundo mostram uma fração menor de crentes: 23% na Suécia, 34% na Noruega e França, 38% no Reino Unido, 43% na Bélgica e 47% na Alemanha, para citar apenas alguns exemplos (Eurobarometer 2005). Isto reflete a rápida secularização nas nações onde quase todo mundo era religioso apenas a algumas centenas de anos atrás. A secularização, claro, é um fenômeno complexo e a experiência da Europa não pode necessariamente ser tomada como aplicação universal. Ainda assim, ele certamente nos dá razão para ser cético em relação a alegações de que a compreensão da fé nunca pode estar solta. Ele mostra que, mesmo que a crença religiosa seja inata – talvez algumas ligações no cérebro pela evolução sejam suficientemente maleáveis para serem completamente superadas por muitos indivíduos.
Segundo, todos os indicadores mostram que a religião está também diminuindo nos EUA, uma tendência que pode explicar o aumento pequeno, mas significativo na aceitação da evolução desde 1982. Por exemplo, Solt et al (2011) mostraram que a religiosidade agregada americana, uma estatística que incorpora ambas atitudes e práticas, caiu quase 30% entre os anos 1960 e 2005. E uma pesquisa do Pew Forum em 2008 mostrou que as maiores mudanças ao longo da vida ocorrem nos grupos “não filiados” a grupos religiosos (ateístas, agnósticos ou sem religião em particular): 7,3% dos adultos dizem que eles não eram filiados a uma religião quando criança, mas 16,1% são não filiados hoje. Este 8,8% de aumento ultrapassa em muito as mudanças entre os indivíduos que possuíam alguma fé na infância, a maioria das filiações demonstrou algum aumento ou declínio de 1% na crença quando seus adeptos atingiam a idade adulta.
Um argumento contra o enfraquecimento da religião é que ela também irá enfraquecer a moral. Existem muitos que pensam que, porque Deus é a fonte última da moralidade, um mundo sem religião seria um mundo repleto de trapaças, corrupções e crimes (por exemplo, Lewy, 1996). Ainda não existe se quer uma centelha de evidência para tal afirmação. Muitos países da Europa, especialmente a Escandinávia, é em grande parte ou predominantemente povoada por ateístas ou agnósticos e, ainda assim, essa sociedade é, no mínimo, mais moral do que a religiosidade americana (Zuckerman, 2008) e certamente não são exaltados pelo pecado. Esta conclusão também é encontrada no trabalho de Greg Paul (2009) descrito abaixo, que mostra que as sociedades religiosas são, em média, mais disfuncional do que as seculares. Finalmente, Pyysiäinen e Hauser (2009) conduziram um questionário online apresentando novos delemas morais às pessoas de várias formações. Eles concluíram (pg. 106) “em dezenas de dilemas, e com centenas de assuntos, o padrão de julgamento moral proferidas pelos indivíduos com uma formação religiosa não diferia dos ateístas e, mesmo nos casos em que se constatou diferenças estatisticamente significativas, o tamanho do efeito foi trivial”. Isto está de acordo com a própria experiência cotidiana que os não crentes não se destacam como especialmente imorais.
Mas ainda tem o problema de que, embora avançado tecnologicamente entre as nações do primeiro mundo, os EUA, excepcionalmente é o único a ter em alta conta a crença religiosa. Existem muitas teorias, mas recentemente um trabalho de sociologia que se destaca. Aquele que propõe que os EUA, embora rico em tecnologia pesada é socialmente disfuncional em comparação com outras nações. Em outra palavras, alguns aspectos da sociedade americana reduz o bem estar de seus membros. É revelador que a disfunção social está associado ao alto grau de crença religiosa: em tempos difíceis, as pessoas se voltam para Deus pedindo ajuda.
O estudo mais abrangente, que resume o início do trabalho e avalia outra teorias, é o de Gregory Paul (2009). Paul construiu um índice de saúde social para 17 democracias prósperas do primeiro mundo, a “Escala de Sociedades bem Sucedidas” (SSS – Successful Societies Scale). Este incorporou 25 índices de bem estar social, incluindo taxa de homicídios, prisão, moralidade juvenil e aborto entre adolescentes, a incidência de doenças venéreas e consumo de álcool, corrupção, níveis de pobreza e disparidade de renda e assim por diante. Verifica-se que nos 10 pontos da escala SSS, os EUA, tem um escore de 2,9, classificação esta, menor em relação a muitos países com escore mais elevados (exemplo, Suécia com 7,1; Japão 6,0; Itália 5,6 e Austrália 4,8). De fato, os EUA ficaram em último entre 14 das 25 categorias e ficou acima, em média, apenas de cinco. Apesar da imagem dos EUA como uma nação saudável e rica, os dados de Paul mostraram que, comparando a outros países, ela é uma sociedade doente.
Paul comparou os escores SSS entre as nações com a religiosidade e a aceitação da evolução humana. A Figura 2 mostra que ambas as correlações foram substanciais: a disfunção social é significativamente e positivamente correlacionada com a crença em Deus, e a religiosidade é negativamente correlacionada com a aceitação da evolução humana (como esperado na Figura 1, a crença religiosa é também negativamente correlacionada com a aceitação da evolução).
O que estas correlações mostram? Paul sugere duas interpretações. A primeira, que ele denomina de “passiva” é esta:

As circunstâncias de alto risco dos EUA, da existência de fortes variações econômicas e competitividade crônica, ajudam a elevar a taxa de patologia social e contribui fortemente para aumentar o nível pessoal de stress e ansiedade. A maioria dos americanos se sentem suficientemente inseguros e, por isto, a necessidade em procurar auxílio e proteção de um criador sobrenatural, impulsionando níveis de opinião e participação religiosa (pg. 421).

Em outras palavras, a patologia gera religiosidade. Paul chama sua outra interpretação de “ativa”:

...os altos níveis do teísmo conservador contribuem diretamente para as pobres circunstâncias sociais e obras de caridade baseada na fé que incentivam a religiosidade popular e opiniões criacionistas (pg. 423).

Usando outros dados, Paul julgou a passividade o fator mais importante.
Os resultados alcançados por Paul são apoiados por Rees (2009), que encontrou em uma pesquisa entre 67 nações, uma correlação positiva altamente significativa entre a desigualdade de renda, como medido pelo índice Gini, e a religiosidade, medido pela frequência de orações entre os cidadãos. A desigualdade de renda, possui um efeito significativo sozinho, mas também está fortemente correlacionado com outros índices de insegurança social, incluindo baixa expectativa de vida, alta mortalidade infantil e alto nível de homicídio. Rees concluiu que, ou a alta religiosidade leva a uma maior desigualdade de renda, ou o que é mais plausível, que a desigualdade de renda é a causa, ao promover a insegurança, para a existência de uma fé mais profunda.
A causalidade é mais clara nos estudos de Solt et al (2011) no qual mostrou que a desigualdade de renda tanto entre países como em períodos dentro dos EUA está positivamente e significativamente correlacionado com cada uma das 12 medidas de religiosidade. Além disso, as análises temporais dentro dos EUA, mostraram que as mudanças na desigualdade de renda parecem ser a causa, a desigualdade de renda em determinado ano afeta a religiosidade nos anos seguintes, mas o oposto não ocorre. Solt et al argumentaram que esta correlação reflete o controle social pelos ricos, porque em situações de grande desigualdade os ricos prontamente se tornam mais religiosos que os pobres. Isto pode fornecer aos ricos “o motivo e os meios para disseminar a religião mais intensamente através da sua ação social” (pg. 448), pedindo harmonia e sufocando o descontentamento. Se isto for verdade, os estudos de Paul e Solt et al, ambos sugerem que a grande crença em Deus e, portanto, a maior oposição à evolução, pode ser produto da sociedade disfuncional.
O criacionismo nos EUA, então, pode ser um sintoma da religião, mas a religião no mundo moderno pode ser por si, um sintoma da sociedade pouco saudável. Ultimamente, a grande estratégia de fazer os americanos mais receptivos à evolução, poderia requerer o afrouxamento da religião em nossa nação. Isto pode parecer não apenas injusto, mas insustentável, mesmo que dados de outros países sugiram que o secularismo é possível e, de fato, neste momento, cresce nos EUA. Mas enfraquecer a religião pode exigir outras mudanças mais profundas: criar uma sociedade que seja mais justa, mais solidária, mais igualitária. Independentemente de como você se sinta em relação à religião, certamente é um objetivo a mais que podemos subscrever.


FIM