domingo, 18 de setembro de 2016

DEUS NOS DETALHES - Jerry A. Coyne

Em 1996, Michael Behe publicou o livro Darwin's Black Box. No Brasil, foi lançado em 1997 pela Jorge Zahar Editor, com o título A Caixa Preta de Darwin. Em 1996, Jerry A. Coyne publicou uma resenha sobre o livro na revista Nature, vol 383. Abaixo o texto traduzido do original.

A meta dos criacionistas tem sido sempre substituir o ensino da evolução pela narrativa dada nos primeiros sete capítulos do Gênese. Quando o caminho fica impedido à esta tentativa, os criacionistas ensaiam uma nova estratégia: disfarçam-se com o manto da ciência. E desta forma reúnem palavras contraditórias como “criacionismo científico”, argumentando que os verdadeiros fatos da biologia e da geologia mostram que a Terra é jovem, que todas as espécies foram criadas repentinamente e simultaneamente e a extinção em massa fora causada pelo grande dilúvio mundial. A semelhança entre esta teoria e o livro do Gênese foi, claro, meramente acidental. O criacionismo científico, contudo, fracassa. Virtualmente todo “cientista” criacionista seria um fundamentalista religioso sem habilidade em biologia, e a corte americana claramente identifica os clérigos por baixo dos jalecos.
Em "A Caixa Preta de Darwin", Micheal Behe oferece uma nova e mais sofisticada versão do criacionismo científico. Diferentemente de seus predecessores, Behe é um verdadeiro cientista, um bioquímico da universidade de Lehig na Pensilvânia. O livro assegura que ele não é um criacionista, mas que acredita no método científico. Seu argumento, contudo, é uma versão reciclada da noção criacionista que o “projeto complexo” implica em uma projetista inteligente. Porém, onde William Paley ilustrou esta lógica com um relógio, Behe usa a bioquímica. Sua futura audiência de leitores leigos pode ser impressionada pela elaborada descrição da biologia molecular e longas listas de referências, porém, a alternativa “cientifica” de Behe para a evolução enfim, torna-se uma confusa e não comprovada mistura de ideias contraditórias.
A tese de Behe é que os organismos abrigam caminhos moleculares tão elaborados e interconectados que eles não podem ser explicados pela evolução gradual a partir de precursores simples. Seus exemplos para tais caminhos são descritos com admirável clareza de estilo, compreende a coagulação do sangue, o sistema imunização e o transporte intercelular. Esta parte ele chama “complexidade irredutível”: eles não funcionariam se qualquer componente simples fosse removido. Porque o darwinismo requer que o caminho seja útil em todos os estágios de sua evolução, Behe reivindica que tais caminhos complexos irredutíveis não evoluiriam em passos. Sua existência, consequentemente, implica em um projeto consciente e um projetista inteligente (como todo cientista criacionista, Behe sustenta renunciar sobre a identidade do Grande Projetista, mas o autor, que professa o catolicismo romano oferece uma pista). Os evolucionistas são ditos resistirem a esta ideia de projeto por uma causa obstinada, porém a uma desarrazoada aversão a explicações sobrenaturais. Behe, contudo, está livre desta restrição. Com paternal orgulho, ele declara que sua descoberta do projeto bioquímico “deve ser classificada como uma das grandes façanhas na história da ciência”, rivalizando com “aquelas de Newton e Einstein, Lavoisier e Schrödinger, Pasteur e Darwin”.
Não há dúvida que os caminhos descritos por Behe são assustadoramente complexos e sua evolução seria difícil para ser desvendada. Ao contrário das estruturas anatômicas, cuja evolução pode ser traçada com os fósseis, a evolução bioquímica deve ser reconstruída a partir de organismos vivos altamente evoluídos, e podemos sempre ser incapazes de prever as primeiras vias primitivas. Não é valido, contudo, assumir, porque alguém não seja capaz de imaginar tais vias, que elas não poderiam ter existido. Além disso, como J. B. S. Haldane apontou: “minha própria suspeita é de que o universo não é apenas mais estranho do que supomos, mas mais estranho do que podemos supor”. Nós enfrentamos não apenas a ausência de dados, como também o terrível fato que somos criaturas com cognição e imaginação limitadas.
A questão do argumento de Behe consiste em perceber que as vias bioquímicas não evoluíram por meio da adição sequencial de etapas que se tornam funcionais apenas no final. Em vez disso, elas foram manipuladas como peças cooptadas de outras vias, genes duplicados e enzimas multifuncionais iniciais. A trombina, por exemplo, é uma das principais proteínas de coagulação do sangue, mas também atua na divisão celular, e está relacionada com a tripsina das enzimas digestivas. Quem sabe qual a função que veio primeiro? Behe faz algumas tentativas tímidas para construir estas vias, mas rapidamente abandona a empreitada e chora pelo “projeto”.
Evolucionistas vão encontrar outros dois problemas com os argumentos de Behe. Primeiro, existe ampla evidência para a evolução da morfologia e anatomia a partir dos estudos de paleontologia, embriologia, biogeografia e órgãos vetigiais. Essa evolução deve, naturalmente, ser baseada na evolução das moléculas e caminhos bioquímicos. Segundo, temos abundantes evidências para a evolução das moléculas. Isto inclui a notável congruência entre filogenias com base na anatomia e aquelas baseadas no DNA ou sequência de proteínas (a hemoglobina do morcego, por exemplo, é muito mais semelhante à das baleias do que com a das aves). O parentesco dos genes através da duplicação dos genes (incluindo aqueles envolvidos no sistema imunológico e coagulação do sangue), e a existência vestigial de “falsos genes” que foram úteis nos antepassados (diferentemente da maioria dos mamíferos os humanos não podem sintetizar a vitamina C; nós ainda carregamos os genes para a etapa final deste caminho, mas eliminações tornaram-na não funcional).
A resposta de Behe para estes problemas constituem a maior fraqueza de sua história. Ele mastiga a ideia da evolução morfológica, mas não consegue engoli-la. Ele acha a ideia de um descendente comum para todos os organismos “bastante convincente”, e admite que a microevolução ocorre dentro da espécie, mas não vê qualquer evidência para as transições entre as formas principais (como negar a descendência comum e negar a macroevolução é uma das questões fascinantes que Behe deixa sem resposta). Finalmente, em uma tática única na literatura criacionista, admite que, tanto a evolução como a criação podem ocorrer ao nível molecular. Tal teoria híbrida, no entanto, produz prole estéril, tal como a ideia de Behe de que o “projeto” da primeira célula poderia incluir o DNA para toda a mudança evolucionária, incluindo os olhos e o sistema imunológico.
Para responder às observações dos genes não funcionais e processos moleculares ineficientes, Behe teoriza que o Grande Projetista, como sua duplicata em Paris e Milão, tem meta além da funcionalidade: “recursos que nos parecem estranhos em um projeto pode ter sido lá colocado pelo projetista por um motivo – por razões artísticas, para variar, para mostrar, por algum propósito prático ainda não detectável ou por alguma razão incompreensível – ou não pode”. Deve-se adicionar ainda a “razão endiabrada”: para confundir os futuros biólogos, fazendo as coisas parecerem que evoluíram.
Se se aceita a teoria de Behe que tanto a evolução como a criação podem operar em conjunto, e que a meta do Projetista são insondáveis, então ele apresenta uma teoria hermética que não pode ser provada errada. Eu posso imaginar evidências que falsificam a evolução (um fóssil hominídeo no pré-cambriano faria muito bem), mas nenhuma que possa falsificar a complexa teoria de Behe. Mesmo após um esforço imenso, fossemos capazes de compreender a evolução de um caminho bioquímico complexo, Behe poderia simplesmente afirmar que a evidência para o projeto reside em outras vias inexplicáveis. Como nunca se consegue explicar tudo, sempre haverá provas para um projeto. Este criacionismo regressivo ad hoc pode parecer inteligente, mas certamente não é ciência. Como apontou o teólogo Dietrich Bonhoeffer, isto também é uma religião ruim: “se de fato as fronteiras do conhecimento estão sendo empurradas cada vez mais para trás (e este é o caso), então Deus está sendo também empurrado para trás com elas e, portanto, continuamente em retirada”.
No final, Darwin’s Black Box é um trabalho de defesa cuja ascendência criacionista é revelada tanto por sua retórica quanto pela incapacidade de lidar honestamente com a evidência da evolução. Existem citações seletivas de evolucionistas (incluindo, para meu horror, uma observação minha alterada e fora do contexto), escárnio de cientistas e um estilo folclórico “nós-contra-eles” que refletem as raízes populistas do criacionismo. Este livro, sem dúvida, será amplamente citado pelos criacionistas bíblicos, que veneram sua mensagem de projeto enquanto ignoram sua tímida aceitação da evolução e sua visão do criador como um Traquina Cósmico.
Se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegaremos a lugar algum transformando nossa ignorância em “Deus”. Lord Kelvin declarou que a Terra primitiva precisava esfriar muito rapidamente para permitir a grande idade exigida pelo darwinismo. Como ele poderia ter imaginado que a radioatividade seria descoberta quatro décadas mais tarde para provar a origem da ausência de calor? Duane Gish, o decano dos criacionistas americanos, uma vez defendeu a criação separada de mamíferos e répteis, com base na estrutura das mandíbulas. Cada um tem uma articulação da mandíbula feita a partir de um par diferente de ossos, e Gish não conseguia imaginar como a forma de transição podia mastigar enquanto sua mandíbula estava sendo equilibrada e rearticulada. Em 1958, contudo, Fuzz Crompton descreveu um réptil como um mamífero com uma articulação da mandíbula dupla que incluía ambos os pares de ossos. A evolução das vias bioquímicas é certamente mais estranho do que pode supor o professor Behe.


Jerry Coyne é do Departamento de Ecologia e Evolução, Universidade de Chicago, Chicago, Illinois 60637, USA.

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