Para alguns o filme é adorável, surpreendente e inteligente, para outros, maniqueísta que pretende alfinetar os ateus. Quem está com a razão?
Os escritores e roteiristas do filme Cary Solomon, Chuck Konzelman e Hunter Dennis apoiados pelo apologista Dr. Rice Broocks erraram feio, porque se a obra foi realizada com o objetivo de provar a existência de Deus, falha; se o objetivo é convencer os ateus para assumirem uma religião, mesmo sem provas da existência de Deus, também falha; caso deseje apenas convencer seus próprios seguidores, a manterem suas crenças, também falha; O filme é mais um grito de desespero. Desespero com a onda crescente de ateísmo no mundo, que segundo estudiosos da religião se deve a determinadas facções religiosas conhecidas como protestantes fundamentalistas.
Abaixo apresento alguns pontos discutíveis do filme:
1. Inicia-se com o seu título que é bastante apelativo. Provavelmente desejavam com ele induzirem os futuros espectadores que dariam a prova da existência de Deus. Para isto interpuseram estrategicamente a palavra “não” à frase “Deus está morto”. O filme não apresenta qualquer prova sobre a existência de Deus. Apenas discursos mal alinhavados por um estudante que nem mesmo conhece sua própria religião. A única frase que cita é de C. S. Lewis, porque está na moda com as “Crônicas de Nárnia”. Não apela para os debatedores do tema como Santo Anselmo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Calvino, Lutero e muitos outros ou até mesmo Friedrich Schleiermacher para o qual a religião não pretende explicar e determinar o Universo de acordo com sua natureza. Nem mesmo mostrou capacidade para apresentar o argumento sobre o livre arbítrio;
2. O filme se sustenta sobre um argumento falso: o professor Radisson não é ateu. Um ateu não responsabiliza Deus pelo que acontece de bom ou ruim no mundo ou em sua vida. Isto é uma contradição. Quando o estudante Josh interpela o professor Radisson com a pergunta “por que o senhor tem raiva de Deus”, o professor deveria responder que não tem sentido a pergunta, assim como não tem sentido ter raiva do Papai Noel porque o filho não recebeu um presente no Natal. Criar um falso ateu para alfinetar os ateus é ridículo, principalmente com os diálogos criados. Ao contrário, parece confirmar que os seguidores de uma religião não o fazem por princípio, mas tão somente por ganância, medo ou sentimento de culpa. Ser teísta é acreditar na existência de alguma divindade e ser ateísta é não acreditar na existência de qualquer divindade. Um ateu não é ateu porque lhe doeu o dedo do pé, ou porque a mãe morreu. Será que os autores perceberam que ao tentar deturpar o conceito de ateísmo, vestiram a carapuça de aproveitadores?;
3. Quando o estudante apela para o Big Bang, supondo provar a existência de Deus, apoia-se no senhor John C. Lennox, citado como grande autoridade, que por sinal possui um livro publicado cujo título bombástico é “God’s undertaker: has Science buried God?” e nele afirma “As reverberações do big bang e as subsequentes descobertas científicas apontam com clareza para uma criação ex nihilo consistente com os versículos de abertura do livro do Gênesis”. Acontece que o senhor Lennox mesmo que possuísse alguma autoridade, precisaria apresentar as provas do que afirma. E isto ele não faz. Qualquer leitor da Bíblia sabe que no princípio Deus criou “o céu” ou “os céus” e a terra. Veja que por esta pequena bobagem (céu, céus), demonstram os seguidores da religião judaico-cristã, que ainda não chegaram a uma conclusão sobre o que realmente Deus criou, e têm a desfaçatez em discutir o big bang. Em seguida está escrito que “as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas”. Após este fato ele cria a luz e separa a luz das trevas e, quatro dias após, eis que faz o Sol. É preciso ser muito estúpido para ver nesta passagem aquilo que a ciência descreve como sendo o big bang. Ao criar a luz, já existia tanto a água como o ar (e como o vento soprava impetuoso, significa que existia um gradiente de temperatura). Aqui merece ser citado um pequeno trecho de George Gamow; “– ‘Qual o mais útil, o Sol ou a Lua?’ pergunta Kusma Prutkov, o afamado filósofo russo, e depois de alguma reflexão ele mesmo responde: ‘a Lua é mais útil, pois nos dá o luar de noite, quando tudo está escuro, ao passo que o Sol brilha de dia, quando tudo está claro’”. Como se sabe, Gamow foi um dos elaboradores do modelo do big bang. Mas no filme, o “filósofo ateu” apenas cita uma frase do Hawking, solta no ar;
4. O filme também demonstra flagrante intolerância religiosa ao apresentar a garota Ashla sendo espancada e expulsa de casa por um pai que professa a religião islâmica. Os autores se esqueceram de olhar o telhado de vidro: “podemos observar claramente que um casamento ou mesmo um namoro de um crente com alguém de outra religião, que não tem os mesmos valores cristãos, é desaconselhado por Deus” – está escrito em um site evangélico. Contraditoriamente na 2ª Surata no Versículo 87 do Alcorão está escrito: “Havíamos concedido o Livro a Moisés, e depois enviamos os apóstolos e concedemos a Jesus, filho de Maria, as evidências, e o fortalecemos com o Espírito da Santidade. Acaso, não é certo que cada vez que vos era apresentado um apóstolo contrário a vossos interesses, possuídos de vaidade, desmentíeis uns e assassinavam outros?”. Uma vez mais o tiro sai pela culatra e o filme demonstra a impossibilidade de um discurso ético e moral com base religiosa;
5. O filme reafirma o velho dilema de Adão e Eva: é melhor ser obediente do que desejar a capacidade em discernir o bem do mal. Situação esta que nega a possibilidade da existência de livre arbítrio. A obediência cega é a chave para manter a religião. O discernimento é obra do mal;
6. A obediência e o compromisso com Deus deve superar tudo. Logo no início o estudante Josh abandona sua namorada ao abraçar a causa religiosa e se coloca contra os pais. Deus é mais importante. Imagine este poder nas mãos de pessoas desqualificadas!;
7. O filme é uma ótima obra para ser analisada por psicólogos e psiquiatras;
8. Para encerrar, o filme só convence os desmiolados fieis de carteirinha. Aqueles que choram no salão enquanto o pastor, bispo, apóstolo ou sei lá mais o quê, brada que é preciso pagar pelas orações e balançam seus carnês com orgulho. Como disse um destes homens da igreja “comercializar a religião é melhor que vender droga”.
O filme não é inteligente porque não apresenta argumentos e transforma o debate, que deveria ser considerado sério, em um monte de “abobrinhas”.
Será que vai sobreviver ao futuro?

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